Pelo que penso meu minuto é agora
Pelo que sinto minha hora é inteira
Pelo que sou é esta a vida minha
E se te conto é porque o momento é outro
E se te lembro é porque o amor é muito
E se te calo é por ter cansada espera
Quando te vi minha alma era encontro
Quando te toquei meu todo era encanto
Quando te disse adeus tudo só foi pranto
Pensa você que foi dona minha
Pensa você que foi louca à toa
Pensa você que tudo vale à pena
(Como diria Efe Pê)
Vê se te enxerga
Vê se te acresce
Vê se não me diz
Com que roupa devo ir
Pra te ver
Eu vou mesmo assim
Eu vou mesmo eu mesma
Sou o teu constraste
E a que te quer
Valéria Diniz
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Intervalo Doloroso
"Tudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico (1) de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra [?] de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror á vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.
Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las (2) durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela."
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
(1) com um céu próximo
[?] leitura conjectural do escrito
(2) magoam o que em mim as conhece
Vitrais
Mas, sabe, quando a canção implora pela minha voz, eu a canto outra.
Aquela que se encontra ao lhe ver ressonar e aquela que lhe encontra sem você estar.
Pelo lado de fora dos vitrais, são outras as cores, mais obscuras as fantasias originadas todas através da luz da tarde que se deita sobre você.
E eu me esforço pra não jogar fora a do cansaço...como posso lhe escrever? como ouso amar você?
Mas, sabe, quando?...a sensação de poder atravessar os mares só pra poder lhe ver...quando?...a impressão de planar sem mexer um dedo e, no pouso, ver somente a sua mão a me acenar...
Tarde, a tarde já tarda o adeus.
Outra, a visão já não me espera em meu olhar.
Valéria Diniz
Aquela que se encontra ao lhe ver ressonar e aquela que lhe encontra sem você estar.
Pelo lado de fora dos vitrais, são outras as cores, mais obscuras as fantasias originadas todas através da luz da tarde que se deita sobre você.
E eu me esforço pra não jogar fora a do cansaço...como posso lhe escrever? como ouso amar você?
Mas, sabe, quando?...a sensação de poder atravessar os mares só pra poder lhe ver...quando?...a impressão de planar sem mexer um dedo e, no pouso, ver somente a sua mão a me acenar...
Tarde, a tarde já tarda o adeus.
Outra, a visão já não me espera em meu olhar.
Valéria Diniz
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Pra Começo de Conversa
Já penso que a vida não abriga mesmo certezas. Mas sei que converso, provocando ecos disformes, quando me encontro em plena solidão física.
Não espero escutar respostas nem ter visões. Preciso apenas de um canto, uma idéia, um estímulo que me faça sentir a inexistência do "por acaso"e do "sem razão".
É hora de reverter o processo de destruição - esses planos diabólicos que faço e experimento feito cobaia - , de indagar sobre tudo (tudo inadjetivado), de descobrir intimamente o que torna a realidade - deusa que me faz beata - menos insana. (A existência e a possibilidade da loucura incomodam-me neste momento.)
Que culpa tenho (que ingênua sou!) se me acostumei ao meu ser, se aprendi a moldar-me nele, se sinto a voz ausente e a mente atordoada no meio da multidão?
Que culpa tenho (tolices, tolices) - e mostre-me um mal - em ser pensativa, parecer longínqua, nunca estar onde deveria estar, nem fazer o que deveria fazer? (Agora, por exemplo, esqueci-me por que estou aqui sentada a rever borrões...Será que existe outro lugar chamado Terra e nasci justo no falso?
O fato é que não pude ser este ninguém que não pôde ouvir-se e falar-se. Verdade é que possuo um nome apenas e incontáveis e perdidas por aí identidades que podem, a qualquer hora, em qualquer situação, desafiar os próprios pontos finais e mentir, sabendo ser tudo mentira, só para ter menos tempo para viver o que são realmente?
Posso invocar-me e a qualquer frase, da mais primitiva à mais rebuscada, com ares fantasiosos de precisões que nunca alcancei cutaneamente nem cardiacamente quanto mais mentalmente. Como então transformei-as em coisas visíveis, palpáveis e legíveis?
Estou cansada de substituir-me por palavras. Irrita-me esta mania dicionarística, esses dedos folheadores, esses tubinhos de tinta que escrevem (esses pensamentos, esses pensamentos meus...)
Queria, certamente, saber passar os dias longe disso tudo; conhecer algum ato destrutivo que me garantisse algum tipo de fim.
Acovardei-me intensamente. Cada vez mais me penetro, cada vez mais sinto loucura por livros, relógios, espelhos e muros e pavor da vida que há atrás deles, dos símbolos, das ordens prévia e mentalmente ordenadas.
Sei falar assim: calada, sozinha, papéis a rodear, afastada de tudo que é vivo, biologicamente escrevendo.
O que não posso fazer, por ausência de lógica, é apresentar causas, conclusões. Mas, devo acrescentar minha vontade de retroceder e aprender, como uma criança, o beabá inicial de uma Língua a princípio dominada sonoramente. E ficar a ouvi-la por mim cantada.
Valéria Diniz
Não espero escutar respostas nem ter visões. Preciso apenas de um canto, uma idéia, um estímulo que me faça sentir a inexistência do "por acaso"e do "sem razão".
É hora de reverter o processo de destruição - esses planos diabólicos que faço e experimento feito cobaia - , de indagar sobre tudo (tudo inadjetivado), de descobrir intimamente o que torna a realidade - deusa que me faz beata - menos insana. (A existência e a possibilidade da loucura incomodam-me neste momento.)
Que culpa tenho (que ingênua sou!) se me acostumei ao meu ser, se aprendi a moldar-me nele, se sinto a voz ausente e a mente atordoada no meio da multidão?
Que culpa tenho (tolices, tolices) - e mostre-me um mal - em ser pensativa, parecer longínqua, nunca estar onde deveria estar, nem fazer o que deveria fazer? (Agora, por exemplo, esqueci-me por que estou aqui sentada a rever borrões...Será que existe outro lugar chamado Terra e nasci justo no falso?
O fato é que não pude ser este ninguém que não pôde ouvir-se e falar-se. Verdade é que possuo um nome apenas e incontáveis e perdidas por aí identidades que podem, a qualquer hora, em qualquer situação, desafiar os próprios pontos finais e mentir, sabendo ser tudo mentira, só para ter menos tempo para viver o que são realmente?
Posso invocar-me e a qualquer frase, da mais primitiva à mais rebuscada, com ares fantasiosos de precisões que nunca alcancei cutaneamente nem cardiacamente quanto mais mentalmente. Como então transformei-as em coisas visíveis, palpáveis e legíveis?
Estou cansada de substituir-me por palavras. Irrita-me esta mania dicionarística, esses dedos folheadores, esses tubinhos de tinta que escrevem (esses pensamentos, esses pensamentos meus...)
Queria, certamente, saber passar os dias longe disso tudo; conhecer algum ato destrutivo que me garantisse algum tipo de fim.
Acovardei-me intensamente. Cada vez mais me penetro, cada vez mais sinto loucura por livros, relógios, espelhos e muros e pavor da vida que há atrás deles, dos símbolos, das ordens prévia e mentalmente ordenadas.
Sei falar assim: calada, sozinha, papéis a rodear, afastada de tudo que é vivo, biologicamente escrevendo.
O que não posso fazer, por ausência de lógica, é apresentar causas, conclusões. Mas, devo acrescentar minha vontade de retroceder e aprender, como uma criança, o beabá inicial de uma Língua a princípio dominada sonoramente. E ficar a ouvi-la por mim cantada.
Valéria Diniz
Distanciando
Eu me vi na árvore
Rotulando o espaço
Eu me vi na copa
Berço feito de espadas
Me afasto do centro
Da abóbada do céu
Refuto as estrelas
Recorro aos estreitos
Caminhos do além
Tempos que criei
Valéria Diniz
Rotulando o espaço
Eu me vi na copa
Berço feito de espadas
Me afasto do centro
Da abóbada do céu
Refuto as estrelas
Recorro aos estreitos
Caminhos do além
Tempos que criei
Valéria Diniz
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Idade Média: heresias?
"Et ego in illo, disse o padre Bartolomeu Lourenço dentro da abegoaria, pregoava assim o tema do sermão, mas hoje não procurava os efeitos a voz, os trémulos rolados que comoveriam os ouvinte, a instância das injunções, a suspensão insinuante. Dizia as palavras que escrevera, outras que de improviso lhe surgiram agora, e estas negavam aquelas, ou duvidavam-nas, ou faziam-nas exprimir sentidos diferentes, Et ego in illo, sim, eu estou nele, eu Deus, nele homem, em mim, que sou homem, estás tu, que Deus és, Deus cabe dentro do homem, mas como pode Deus caber no homem se é imenso Deus e o homem tão pequena parte das suas criaturas, a resposta é que fica Deus no homem pelo sacramento, claro está, claríssimo é, mas, ficando no homem pelo sacramento, é preciso que o homem o tome, e assim Deus não fica no homem quando quer, mas quando o homem o deseja tomar tomar, posto o que será dito que de alguma maneira o criador se fez criatura do homem, ah, mas então grande foi a injustiça que se cometeu com Adão, dentro de quem Deus não morou porque ainda não havia sacramento, e Adão bem poderá arguir contra Deus que, por um só pecado, lhe proibiu para sempre a á e lhe fechou para sempre as portas do paraíso, ao passo que os descendentes do mesmo Adão, com tantos outros e mais terríveis pecados, têm Deus em si e comem da árvore da Vida sem nenhuma dúvida ou impedimento, se a Adão castigaram por querer assemelhar-se a Deus, como têm agora os homens a Deus dentro de si e não são castigados, ou o não querem receber e castigados não são, que ter ou não querer terDeus dentro de si é o mesmo absurdo, a mesma impossibilidade, e contudo Et ego in ill, Deus está em mim, ou em mim não está Deus, como poderei achar-me nessa floresta de sim e não, de não que é sim, do sim que é não, afinidades contrárias, contrariedades afins, como atravessarei salvo sobre o fio da navalha, ora, resumindo agora, antes de Cristo se ter feito homem, Deus estava fora do homem, e não podia estar nele, depois, pelo sacramento, passou a estar nele, assim o homem é quase Deus, ou será afinal o próprio Deus, sim, sim, se em mim está Deus, eu sou Deus, sou-o de modo não trino ou quádruplo, mas uno, uno com Deus, Deus nós, ele eu, eu ele."
in, "Memorial do Convento", de José Saramago, 1982
in, "Memorial do Convento", de José Saramago, 1982
A Busca
Para onde foi parar meu bando?
Amar, trabalhar e afins?
Para onde para quando?
Para e quando refinar seus nãos e sins?
Pára, para, devagar,
minha mente não escorrer assim,
feito cachoeira a escorregar na imensidão.
Não mergulharei sozinha.
Para que correr o risco de me machucar agora?
Mas aonde enconrarei meu bando?
Será que não encontrarei mais?
Será que não mais voltará?
Será que não verei mais?
Nem prosseguir e procurar?
Vou devagar,
pára, para, em algumas trilhas
imaginar meu bando estar
Meus sapatos já não suportam
tanta escalada para adentrar.
Precisei jogá-los fora
e meus pés ficaram nus.
Quão difícil estar a caminhar!
Pára, para, devagar,
eu não temer mais não poder agüentar.
Tantas pedras molhadas,
escorregões, picadas,
nenhuma grama fofa para pisar,
deitar e descansar.
Mas preciso achar meu bando!
Para com ele não abandonar minha vida,
para tentar entender seus planos.
Ensinem-me a uma bússola usar!
Medo maior é escorregar.
Por enquanto, até não sei quando,
com meu bando preciso ficar.
Valéria Diniz
Amar, trabalhar e afins?
Para onde para quando?
Para e quando refinar seus nãos e sins?
Pára, para, devagar,
minha mente não escorrer assim,
feito cachoeira a escorregar na imensidão.
Não mergulharei sozinha.
Para que correr o risco de me machucar agora?
Mas aonde enconrarei meu bando?
Será que não encontrarei mais?
Será que não mais voltará?
Será que não verei mais?
Nem prosseguir e procurar?
Vou devagar,
pára, para, em algumas trilhas
imaginar meu bando estar
Meus sapatos já não suportam
tanta escalada para adentrar.
Precisei jogá-los fora
e meus pés ficaram nus.
Quão difícil estar a caminhar!
Pára, para, devagar,
eu não temer mais não poder agüentar.
Tantas pedras molhadas,
escorregões, picadas,
nenhuma grama fofa para pisar,
deitar e descansar.
Mas preciso achar meu bando!
Para com ele não abandonar minha vida,
para tentar entender seus planos.
Ensinem-me a uma bússola usar!
Medo maior é escorregar.
Por enquanto, até não sei quando,
com meu bando preciso ficar.
Valéria Diniz
Assinar:
Postagens (Atom)
